quarta-feira, 2 de março de 2011

Formação Política: Balanço Preliminar e Perspectivas para 2011

Por Bernardo Cotrim*

Iniciamos, em 2010, o desafio de construir a I Jornada Nacional de Formação Política do PT no Rio de Janeiro, preparada desde o ano anterior pela Escola Nacional de Formação Política do partido. A meta nacional – organizar 10% dos filiados ao PT em âmbito nacional em atividades da jornada – traduzia-se no nosso estado em um objetivo nada modesto: dez mil petistas deveriam passar pelos cursos.

A paralização da agenda formativa por mais de dez anos no PT-RJ trouxe-nos vários problemas. Em primeiro lugar, inexiste uma cultura de participação em espaços não-deliberativos. Isso se traduz no senso comum expresso pela militância de estranhamento aos espaços “que não decidem nada”.

Em segundo lugar, o cenário de pulverização das correntes internas e aumento considerável de participação institucional do PT gerou um quadro de ausência de uma camada de dirigentes intermediários que pudessem se dedicar às tarefas de formação. Não foi possível, ainda, consolidar um coletivo permanente de formadores, coordenado pela secretaria de formação, responsável pela difusão dos conteúdos e monitoramento das atividades no estado.

Em terceiro lugar, é preciso dimensionar os impactos de fenômenos da sociedade brasileira no conjunto da militância do PT. Falamos frequentemente em crise da escola pública, mas não fazemos a ponte entre este aspecto e a formação média da nossa base social. O resultado disso é que sofremos constante pressão conservadora pelo impacto dos meios tradicionais de comunicação na formação da opinião média da militância.

Em quarto lugar, as dificuldades financeiras do nosso partido são um limitador de ação a priori. Um processo permanente de formação política exige investimento em comunicação, pessoal, realização de eventos. A boa vontade e a disposição militante são essenciais, mas a falta de dinheiro é um transtorno.

Sobre a Construção da Jornada

Iniciamos o planejamento em uma reunião com as secretarias municipais de formação, com o objetivo de responsabilizá-las pela apresentação de planos de trabalho nos municípios. Realizamos, na seqüência, um encontro estadual com as mesmas, contando com a participação de 23 municípios e 4 zonais da capital. Construímos um plano de trabalho abrangendo todas as micro-regiões do estado, e optamos por estimular o maior número possível de atividades municipais.

Criamos, ao mesmo tempo, um coletivo de formadores amplo, com a presença de militantes de correntes distintas, de maneira a reforçar o caráter pluralista do partido e a necessidade de trabalharmos as diferentes visões, tendo sempre como orientador as resoluções oficiais do PT. A experiência do coletivo precisa ser repensada, já que o mesmo careceu de periodicidade de reuniões e acabou desmobilizando-se durante a jornada.

Trabalhamos com o conteúdo nacional elaborado para a jornada, que consiste em 3 cartilhas – cada uma abordando um módulo do curso - e um CD-ROM contendo todas as resoluções congressuais e de encontros do PT; o estatuto; o código de ética; o manifesto de fundação, entre outros.

Fizemos a ponte direta com os diretórios municipais, o que resultou numa construção oxigenada, com envolvimento militante nas tarefas. Conseguimos animar uma agenda que foi importante para o embate eleitoral, pois a profundidade dos debates travados influenciou a intervenção dos petistas.

Constatamos, no entanto, que a Formação, na maioria dos diretórios, ou é um cargo ocupado pela chapa minoritária – o que causou efetivamente prejuízo na mobilização e envolvimento do conjunto das direções – ou é a última chamada da chapa majoritária, o “cargo que sobrou”. Essa é a forma como o abandono das políticas formativas se manifesta na composição dos diretórios.

A Jornada em números:

Realizamos cursos nos municípios de Angra dos Reis, Barra Mansa, Belford Roxo, Cabo Frio, Campos dos Goytacazes, Duque de Caxias, Paty do Alferes, Mesquita, Japeri, Volta Redonda, Saquarema, Macaé, Nova Friburgo, Teresópolis, São Gonçalo e São João de Meriti, envolvendo, em muitos casos, a militância de municípios vizinhos. Organizamos também 6 etapas na capital (metade das zonais). Atingimos um total de 1387 filiados ao PT, o maior contingente mobilizado em atividades direcionadas de formação desde a década de 90.

Os municípios da Região dos Lagos, do Sul Fluminense e da Baixada Fluminense foram os que mais se mobilizaram para a jornada. As maiores etapas ocorreram em São João de Meriti, Cabo Frio, Belford Roxo, Duque de Caxias, Volta Redonda e Angra dos Reis.

Em compensação, os municípios governados pelo PT ou onde o PT participa do governo tiveram pouca relação com a jornada. Petrópolis, Paracambi, Conceição de Macabu, Santa Maria Madalena, Silva Jardim e Maricá não participaram do processo. Precisamos enfrentar uma cultura de despolitização que desloca o espaço de gestão da arena política e ideológica. Ocupamos espaços nos governos para mudar a realidade objetiva da vida das pessoas; o debate e a reflexão permanentes são fundamentais para conhecer limites e potencialidades de cada experiência.

Cabe citar, como problemas que precisam ser enfrentados por nós:
A região noroeste não realizou uma única etapa da jornada; Niterói e Nova Iguaçu, os dois maiores diretórios depois da capital, também não realizaram uma única etapa; e o Rio de Janeiro, além de só ter realizado em metade das zonais, teve baixíssima média de comparecimento (a etapa mais cheia não chegou a 50 militantes, abaixo da média estadual).

Em geral, há uma enorme resistência em participar por parte de dirigentes municipais e vereadores. Outra máxima do senso comum petista diz que formação é para a “base”, ou seja, dirigentes e quadros públicos “já estão formados”. Se constatarmos que houve uma enorme renovação nas direções e parlamentos municipais exatamente durante os mais de dez anos de ausência de formação, veremos que a máxima é falsa.

O saldo positivo foi a mobilização de um expressivo contingente, em atividades de baixíssimo custo (a jornada foi quase toda custeada pelo PT Nacional, e os gastos foram basicamente deslocamento e hospedagem dos formadores), além do mais importante: a retomada da formação como uma pauta do partido, despertando interesse dos diretórios, que passaram a apresentar novas demandas para a pasta.

Perspectivas para 2011

O PT Nacional aponta para o fortalecimento das atividades de formação. Em linhas gerais, a reunião de planejamento nacional apontou para a continuidade da jornada, acrescida de um quarto módulo sobre a questão internacional. Além disso, a questão eleitoral de 2012 ganha espaço importante na agenda do partido, e esse esforço deve ser incorporado pela formação, tanto na construção de debates sobre programa de governo, como na atualização do modo petista de ação parlamentar. É grande o número de diretórios que apresentam demandas nesse sentido.

Precisamos também realizar esforços conjuntos com os setoriais, em especial as Secretarias de Juventude, Mulheres e Combate ao Racismo. O PT-RJ ainda é um partido predominantemente masculino, suas figuras públicas são majoritariamente brancas e a sua militância está envelhecendo, sem um adequado processo de renovação. A presença de jovens nas atividades da jornada foi residual, e tivemos cursos com menos de 10% de participação de mulheres.

Precisamos reforçar o caráter da formação política petista como FORMAÇÃO PARA A AÇÃO. Nossos cursos, debates, oficinas e demais atividades tem como objetivo auxiliar a intervenção concreta na realidade. Não pretendemos ter o caráter de grupo de estudos, círculos acadêmicos ou escritório auxiliar de gestão. Mesmo quando incentivamos que a militância leia a Teoria e Debate, por exemplo, é com o objetivo de instrumentalizá-la para atuar no partido, nos movimentos, governos e mandatos parlamentares, e de estimular a capacidade crítica dos filiados para que formem de maneira autônoma sua opinião política, tornando-os mais críticos e atuantes.

Devemos marcar uma reunião de planejamento para abril, logo após o início do seminário organizado pelo diretório, aproveitando a mobilização gerada por ele e o diagnóstico dos municípios que será produzido pelo GTE para impulsionarmos uma agenda que combine a continuidade da Jornada com os cursos voltados para candidatos, organizados em conjunto com a Secretaria de Assuntos Institucionais. A ênfase na transversalidade dos temas e pastas deve ser buscada por nós, com a realização de um encontro do PT com representantes de movimentos sociais (proposta a ser debatida em conjunto com a SEMOP) e com a retomada do envolvimento do partido com a pauta da democratização das comunicações.

Os espaços de comunicação devem ser melhor explorados por nós. Site e redes sociais precisam se constituir como canais importantes para a difusão de conteúdo, monitoramento das atividades e eventos à distância. Podemos transmitir debates pela internet, realizar fóruns de discussão, disponibilizar documentos partidários, textos clássicos e artigos de opinião sobre os mais diversos assuntos.

Por último, devemos realizar o esforço de constituição de um coletivo permanente de formadores e gestores das políticas de formação, com participação de militantes de todas as correntes internas com EXPERIÊNCIA em atividades formativas. Esse coletivo deve assegurar o suporte e a continuidade do trabalho de formação partidário, sendo coordenado pelo secretário de formação, mas com uma composição que se mantenha mesmo com alteração na secretaria ou mudança de gestão. Um encontro de dois dias, com o caráter de “formação de formadores” é imprescindível para o sucesso da empreitada.

Acredito que com esses indicativos temos condições de travar um bom debate que aponte para o incremento das atividades de formação, com saldo favorável para a construção futura do PT como partido socialista, democrático e de massas.

*Bernardo Cotrim é Secretário Estadual de Formação Política do PT-RJ

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